Quem não arrisca, não petisca
Para testemunhar o “bom” também temos que testemunhar o “mau” e isso só pode ser feito com presença.
Eu tenho medo do fracasso. Aos meus 34 anos, o meu maior medo é de fracassar. É um medo irracional, mas que vive permanentemente comigo.
Qualquer tipo de fracasso me atormenta. Desde o mais simples como perder um objecto ou atrasar-me para um compromisso, até coisas maiores como não passar numa entrevista de trabalho.
Durante a minha reflexão, percebi que vivo inconscientemente sob uma série de falácias oriundas desse medo que gostaria de partilhar.
1. O meu valor está na capacidade de ser excelente
Eu sou a filha mais velha e os meus pais, como muitos outros da sua época, eram muito exigentes comigo. A principal pressão era académica, mas também sobre o comportamento. Isso ensinou-me desde muito nova que o meu valor estava na minha capacidade de ser excelente. Quando cresci, apesar de racionalmente ter percebido que isso não só não corresponde à verdade, como também é resultado do contexto em que os meus pais foram criados, ainda guardo bem dentro de mim esse condicionalismo. Isso faz-me pensar que se eu quiser ter sucesso na vida e ser aceita, preciso sempre ser excepcional e que qualquer desvio desse padrão torna-me menos importante e fadada à rejeição.
Hoje percebo que essa é uma condição que nega partes de mim que também precisam de ser vistas e amadas, as partes “menos excelentes”. Se só as partes boas são aceitas, será que sou eu ou uma versão de mim? Será que quero ser amada por quem aprova apenas uma versão?
2. O que importa é o resultado e não o processo
Eu sempre me apeguei aos resultados. Se o resultado for bom, significa que a experiência foi boa. E se o resultado foi mau, significa que a experiência foi má. Com o meu amadurecimento, percebo que isso não pode ser verdade. Classificar uma experiência como boa ou má não depende só do resultado. É como quando dizemos: “O casamento falhou porque acabou em divórcio”. Entretanto os anos de companheirismo, de amor, de convivência harmoniosa não deixaram de existir. Até as lições difíceis que essa união proporcionou fizeram da experiência algo positivo.
Acredito que essa visão é consequência da sociedade capitalista em que vivemos, onde as métricas e os índices de performance se focam em resultados e não na experiência como um todo.
3. Sou intolerante ao desconforto
Concentrar-me só no resultado torna difícil estar presente e me faz intolerante ao desconforto. Não ter aprendido a lidar com o fracasso torna muito difícil lidar com a dúvida, frustração, tristeza e luto. Para essas emoções serem efetivamente resistidas, é preciso viver constantemente no passado e no futuro.
Também me faz avaliar as pessoas e processos a minha volta da mesma maneira. Só quem e o que me traz bons resultados pode ficar. Só quem não me deixa desconfortável me faz bem.
Mas sabemos que a vida não é “preto e branco”. O bom e o mau; o belo e o feio; o fracasso e o sucesso - todos vivem lado a lado. Até porque esses conceitos são apenas construções humanas e sociais. No fundo tudo apenas é o que é. Para testemunhar o “bom” também temos que testemunhar o “mau” e isso só pode ser feito com presença.
4. Viver é muito arriscado
O melhor é sobreviver, viver em situações controladas e conhecidas, não sair da rotina e do esperado, não experimentar coisas novas. Experimentar é abraçar um risco de 50-50 e isso é assustador.
Mas isso é uma ilusão porque a vida é um perpétuo risco. Desde que pômos o pé fora de casa, mil e uma possibilidades podem acontecer e estas podem ser de qualquer natureza. Mas devemos então ficar em casa, deixar de viver? Deixar o medo do fracasso nos controlar significa também privar-nos das bênçãos da vida. Viver numa caverna protege-nos de animas ferozes, mas priva-nos de ver o sol. Será que uma vida sem sol foi realmente vivida?
Espero que esta reflexão inspire-te a não viver em função de onde queres chegar, mas sim de como gostarias de caminhar.
Segue-me no Substack se quiseres interagir.