A benção do Fundo do Poço

Só quem conhece intimamente a escuridão é capaz de conter em si a luz em todo o seu espectro.

Eu visito o meu Fundo do Poço regularmente - pelo menos uma vez por mês, no chamado “período pré-menstrual”, mas não tão raras são as vezes que o visito fora desse período.

Todos nós temos uma versão diferente de Fundo do Poço e caminhos comuns ou individuais para chegar lá, mas no geral, um Fundo do Poço deve:

  • ser muito profundo e muito escuro - a profundidade é grande o suficiente para que não consigamos sair dele sem nenhum tipo de apoio ou alavanca e a escuridão é por ausência completa de luz.

  • ser alcançado voluntária ou involuntariamente por caminhos desconfortáveis ou desafiadores que exigem que ultrapassemos certos limites do mundo interno ou externo.

Por muito tempo essas minhas visitas foram dominadas por total desespero até eu perceber que podia alterar a maneira como as vivia, mesmo sem conseguir evitá-las.

Partilho então aqui três conceitos (ferramentas) que me têm ajudado com a intenção de que sirvam de inspiração para reflexão e busca por ferramentas individuais em outros:

  1. Permissão - isto é, não resistir ou se entregar. Deixar a descida acontecer sem luta. O destino final é o Fundo do Poço e nada existe abaixo dele. Depois de algumas vezes lá estarmos somos capazes de reconhecê-lo com mais rapidez, apesar do breu. Permitir significa dar tempo, dar espaço, tornar o ambiente ao redor favorável para esse período sombrio, sem procurar soluções imediatas. Ouvir o corpo, a mente e a alma e agir para honrá-los facilitando esse processo. Isto às vezes significa reduzir o esforço físico ou estar em isolamento para conservar energia.

  2. Curiosidade - quem ou o que está no Fundo do Poço? Esse é um lugar geralmente muito caótico, com muitos elementos e entidades (incluindo várias versões de nós mesmos). A curiosidade ajuda-nos a sair do desespero quando nos concentramos em algo “fora” de nós. E cada um desses elementos/entidades tem a mesma intenção - ser testemunhado. Sermos capazes de observar, testemunhar e nos relacionar com todos esses elementos sem nos deixarmos consumir, é a chave para uma estadia mais leve, ou até prazerosa.

  3. Fé - e isto não pode ser confundido com esperança. A fé é a certeza de que o desfecho será sempre à nosso favor, mesmo que inicialmente pareça o contrário. É difícil manter-se calmo e confiante no Fundo do Poço, esse é o maior desafio. Mas a fé é uma bengala na qual nos podemos apoiar até que algo ou alguém nos ajude a sair de lá. Mais cedo ou mais tarde, sempre saímos do Fundo do Poço.

Encontrar o alinhamento corpo-mente-alma não significa viver sempre na luz, até porque visitas ao Fundo do Poço são inevitáveis e diria até, compulsórias. Resistir a esses momentos, é só adiar e às vezes esse adiamento tem custos muito elevados.

Da mesma maneira, “elevar a frequência” não é rejeitar as partes sombrias da nossa existência. Muito pelo contrário, a nossa frequência eleva quando estamos presentes na nossa totalidade, por inteiro, abraçando cada pedacinho de nós. São essas visitas que nos fazem surgir mais fortes, mais eretos, mais claros sobre quem somos e com muitas histórias para contar. Só quem conhece intimamente a escuridão é capaz de conter em si a luz em todo o seu espectro.

Portanto, o Fundo do Poço não é uma fatalidade, é uma benção. É uma iniciação para novos potenciais do nosso Ser.